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Foi numa registradora Em conversa informal Que a moeda de um centavo E uma nota de real Falavam de suas vidas E como eram divididas Frente ao abismo social
A moeda boquiaberta Ouvia a nota contar Quão bela era sua vida Sempre a se valorizar No bolso dos abastados Grã-finsos afortunados Em bancos a lhe guardar
E não menos espantada Ficava a nota graúda Ouvindo a pífia rodela Toda carente de ajuda Mostrando a situação Pois quem lhe tinha na mão Sofria pobreza aguda:
- Duvido que isso exista! Dizia o papel ao metal: -Temos estabilidade E equilibrio cambial Nessa nova econômia Valho mais do que eu valia Do que reclama afinal?
Responde a moeda então: - A coisa em baixo tá feia estamos como mosquitos presos grudados na teia Quem me possui só lamenta Sabe Deus como se aguenta Vivendo nessa perreia!
- Mas que pessimismo é esse? Retruca a nota gabosa: - A vida nesse país É coisa maravilhosa Pois não temos furacões E quem investe em ações Leva vida cor de rosa!
A moedinha coitada Tenta então argumentar: - Eu sei valoroso amigo Do quanto podes comprar Mas mesmo juntando a mim Outras moedas enfim Ninguém posso alimentar!
E a nota real exclama: - E Deus não é brasileiro? Ele mesmo quis assim É assim no mundo inteiro Existe o muito e o pouco Uns nascem para ser troco Outros lucro de banqueiro!
A moedinha assustada Calou-se de supetão Deixando o rico dinheiro Continuar sua esplanação E com discurso apurado Parecendo um deputado A nota revela então:
- Moeda minha moedinha Sofro com tua tristeza Darei pra ti a receita O segredo da nobreza Preste muita atenção Livrar-se da situação Exige muita destreza...
Tenha amigos influentes Mantenha a boca fechada Aceite qualquer proposta Que lhe for apresentada Procure logo um doleiro Viage para o estrangeiro Numa conta de fachada...
Em paraisos fiscais Valores não se repara Nem mesmo a proviniência Isso então é coisa rara Pra deixar de ser merreca Esconda-se até em cueca Perca a vergonha na cara...
Deixando de ser moedinha Torna-se-a capital Verá crescer teu sucesso No distrito federal Lá meu amigo eu bem sei Serás assim como um rei Terás poder sem igual...
Entenda o que lhe digo E torne-se valoroso Conheça as cartas do jogo Todo o esquema criminoso Aceitando a realidade No país da impunidade Não se pode ser piedoso!
Eis que mergulhada em lágrimas Tentando justificar O centavo emocionado Tenta a nota retrucar: _Tem de haver outra saída Não acredito que essa vida Pra sempre assim vá ficar!
O assunto é interrompido Quando os dois de uma só vez São retirados da caixa Para o bolso de um burguês E a moeda religiosa Diz pra nota toda prosa Que ali milagre se fez:
- Veja meu caro real Parece até brincadeira Mas dividimos agora o espaço dessa carteira hoje tornei-me alguém creio que um dia também toda nação brasileira
Mas alegria de pobre Por certo não dura nada E a moeda dentre todas Foi por fim utilizada Pra da sola do sapato Retirar côco de gato E no bueiro foi jogada
Mediante a cena bizarra Diz a nota um tanto fria: - A pobre agora entendeu O mundo faz de valia A quem cede a seus engodos, Pois o sol nasceu pra todos Mas sombra se negocia.
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