Home arrow Poesia de Cordel arrow Jão Caixote ( Cordel matuto)

Jão Caixote ( Cordel matuto)

PDF Imprimir E-mail
Image
É dito que Jão Caixote
Filho de Migué o Servente
De tanto sol na molera
Entrevô de vez a mente
E atrás de roda moinho
Corria que nem serpente

Montado no seu jumento
Chapéu de couro e gibão
Gritava ser um jagunço
Que co’ a pexera na mão
Mataria um tal gigante
Que bébe a água do sertão

No caminho da aventura
Na secura sem destino
O sujeito desmiolado
Sem chance de tomá tino
Uniu-se ao bando cabreiro
Do capitão virgulino

Sem dizê coisa com coisa
Animava a jagunçada
Inté Maria Bonita
Achava a coisa engraçada
Avistando o abilolado
Atirá na macacada

E foi num desses confronto
De Lampião com a justiça
Que Jão Caixote sismô
Com as vestes da poliça
Bandiando pro outro lado
Desprovido de maliça

Lampião nem se arretô
Co' a atitude do demente
E o tenente aceitô
Por falta de contigente
E o cabra doido da peste
Marchô seguindo na frente

Agora que era soldado
Achou-se de algum valô
Queria sê delegado
Sê chamado de doutô
Mas quem nasceu criatura
Nunca a de sê criadô

Um dia a mando do serviço
Cumprindo uma diligença
Vistô um estranho vagando
Modi pagá penitença
E o doido foi-se com ele
Dizendo fervor de crença

Sabe-se Deus o motivo
Atras dos dois peregrino
Junto-se uma romaria
Do povinho severino
Ao pastor atribuindo
Reencarnação do divino

Mal sabia Jão Caixote
O destino do parceiro
Sujeito que respondia
Nome Antônio Conselheiro
Homê que faria história
Junto ao sertão brasileiro

O nosso herói sem juizo
Nada a ver tem co’ a questão
E foi numa sexta santa
Em meio a uma procissão
Conheceu um pai de santo
Que andava na multidão

Pro cabra tonto sem rumo
Caiu que nem profecia
Arribou-se ligeirinho
Pro litoral da bahia
Donde dizia ao amigo
O gigante encontraria

Mas que gigante que nada
Encontrô foi um puteiro
Cheinho de pombagira
Que escapara do terreiro
Donde caiu de amizade
De alguns nobre forasteiro

Tinha um chamado José
Tomadô de cagibrina
Que falava sobre a morte
Morte e vida severina
Que Cabral de Melo Neto
Mostrô ao mundo sua sina

outros dois cabeça chata
Nome Jão Grilo e Chicó
Um contô que a Virge Mãe
Gostava era dele só
Pois convenceu Jesus Cristo
Que dele tivesse dó

O caçadô de gigante
Achô a atitude atrevida
Recebendo como ofença
À santa compadecida
Fazendo os cabra corrê
Com o brilho da faca erguida

Nisso grita o sanfoneiro
Sorridente anunciando
Que chegara Luiz Gonzaga
O mestre pernambucano
O forró comeu gostoso
E o dia foi clareando

Mas andante que é andante
Nunca que fica parado
Assim fora o aventureiro
Partindo pra outros lado
Donde Chegô numa feira
De Livro despindurado

Tinha tumém cantadô
Usando rima criativa
Pra modi de tentá vencê
De Assaré, o Patativa
E os verso que ali nascia
De sua memória viva

O desafio só findô
Quando o céu escureceu
E um pé de ventânia
A todos emudeceu
Mas nenhuma gota d’agua
Das nuvê se sucedeu

Entônce o tempo parô
 Se ouvia nem passarinho
Levantando-se do chão
O pai dos roda moinho
Com toda força soprando
Rabiscando seu  caminho

Jão sentiu uma fisgada
Que vinha bem lá do fundo
Vendo o vento tomá forma
Parecendo o fim do mundo
Era visão do inferno
Tal qual um gigante imundo

Partiu ligeiro o abestado
Todo cheio de coragê
Enfrentá o vendaval
Sendo a última viagê
Viagê que  só de ida
Lhe venderô a passagê

E foi girando, girando
Lá pra riba do infinito
Nunca mais se ouviu notiça
Do cavaleiro bendito
Que até hoje, diz a lenda,
Enfrenta o vento mardito

Só que agora lá do azul
Desse mundo azul celeste
Cada batalha vencida
Do herói cabra da peste
Despeja um pouquinho d’agua
No chão seco do nordeste

Sei que tudo aqui contado
Parece inté falcidade
Mas sem prova do contrário
Cria legitimidade
O que antes não existia
Torna-se realidade

Pois verdade e mentira
São como a noite e o dia
Uma faz parte da outra
Nos verso da poesia
Onde louco nasce e morre
Nas terra da fantasia.
 
< Anterior   Próximo >

Powered by NIBA