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Os Finados (Cordel matuto)

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Tem muita história contada

De mistério e assombração

Uns comenta sê verdade

Outros faz jura que não

Mais essa que eu vô dizê

Inté que acredito sê

Essa é minha opinião

 

Quase todo mundo sabe

Não sê de muita esperteza

Brincá com coisa de Deus

Zombando da natureza

E mais no dia dos morto

Donde o castigo vem sorto

Pros dono das marvadeza

 

Foi justo num dia desses

Que feito assim sucedeu

Com Jão cachaça e Biló

E o pinguço do Tadeu

Que foram no cemitério

Sem um dedo de critério

Atormentá quem morreu

 

O sol nem tinha nascido

E os amigo zombeteiro

Batêro fazê bagunça

No trabalho do coveiro

Roubando as velas e as flô

Que os parente com amô

Levaro no dia primeiro

 

No chão do terreno santo

Plantaro dois gol caixão

Feito de vaso sem planta

Veja que situação

Jogaro ali sua pelada

Sem medo de alma penada

Nem memo de mardição

 

Tamanho aquele desprezo

Dos caboco cachaceiro

Que invéis de jogá baráio

Apostando no dinheiro

Casaro túmulo e cova

Gente véia e gente nova

Enterrada no terreiro

 

Mas se finda toda ação

Em reação parecida

Vindo do mundo dos morto

Um cadáver ganhou vida

Castigo veio a cavalo

Antes do cantar do galo

A coisa foi resolvida

 

Foi Pedrinho Engasga gato

Que havera muito morrido

Arribou-se da sua tumba

Se fazendo aparecido

Cumprimentando aos colega

Os trêis bêbado pai d´égua

Estacaro emudecido

 

Pedrinho que no passado

Nunca acreditava em nada

Disse aos velho companheiro

Que longe foi sua jornada

Voltando pra lhes dizê

Seus distino era morre

Inté o fim da madrugada

 

Os bêbado cuja  cana

Tomado tinha a cabaça

Abraçaro o Seu difunto

Visto motivo de graça

Dito foi colado o riso:

_Diz pra nóis, no paraíso

Algo de bão que se faça!

 

O morto vivo contente

Revelou com alegria

Que o céu é maravilhoso

De festejo todo dia

Cheio de anjinha bonita

Vestido e laço de fita

No gracejo e na folia

 

_Nos contá mais mensageiro!

Dizia os malacabado:

Queremo saber de tudo

Que acontece do outro lado!

Bóra o fantasma falante

Respondendo num instante

Sem sê fazê de rogado:

 

_Tem cachoeira de vinho

E lagoa de licô

Lá inté que fica bêudo

Fica bêudo com amô

E caindo embreagado

Anjas te põe levantado

Com beijinhos curadô

 

Os caboco sem juizo

Fizero promessa forte

Abrindo mão de sua vida

Pedindo feliz a morte

Se entregaro de bão grado

Pra mode os trêis sê levado

Celando de vez a sorte

 

E o morto despedaçado

Ligeiro começa a agí

De maneira que os malaco

Num pudesse mais fugí

Rindo a criantura medonha

Disse então pros sem vergonha:

_Inda tem mais um porvir!

 

Os condenado a difunto

Ouviro o morto falá:

_Tudo que eu disse é verdade

A respeito do lugá

Mas a casa do divino

Nunca fôra meu destino

Jamais no céu fui morá...

 

_Eu tumém como vocêis

Nunca fui muito educado

Não respeitei o dia santo

Dito dia de finado

E agora tenho a missão

De levá pro cramunhão

Mais trêis cabrinha safado!

 

Finalmente amanheceu

E o povo foi visitá

Imagine quem quisé

Que susto foi avistá

Trêis caixão empareado

Bem juntinho lado a lado

Pra mode ali sê enterrá!

 
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