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A morte do poeta Pedro Malavorta

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E todo dia era assim
Mas aquele foi assado
Só se fazia falado
Na feira ou no botiquim
Do mau que pusera fim
Na vida do coisa torta
A dita criatura morta
Feito Deus e o diabo
Tinha de manso e de brabo
O tal Pedro Malavorta

Num silêncio constrangido
Foi Joquinha de Quirino
Que arriscou sem muito tino
Tocar no assunto ocorrido:
- Era um cabra destemido
Mas de nada ajuizado
Poeta é bicho danado
Tinha vida desregrada
Não possuia hora pra nada
Pra mim, morreu de cansado!

Na roda abrui-se a questão
E a prosa tomando norte
Cada qual a causa morte
Dirigia opinião
E ligeiro foi João
Vendedor de garrafada
Que disse: _Canseira nada
Mataram o pobre na bala
Num tinha prega na fala
Virando carta marcada!

E o português completou:
- Poeta de verso afiado
Nem coronel deputado
O sujeito respeitou
Creio no que ocê falou
Tão belos versos de amor
Fosse alegria ou de dor
Tecia rima de penca
Mas gostava era de encrenca
Denunciando os doutor!

Chega um caixeiro viajante
Pede cachaça e um ovo
Se mete no meio do povo
Dizendo no mesmo instante:
- Deve de ser importante
O sujeito falecido
Nesses meus anos vividos
Tristeza assim feito aquela
Nunca vi tanta donzela
No velório amanhecido!

- No que disse o forasteiro
Tiro minha conclusão
O tocador de violão
Era galo sem terreiro
E causava entreveiro
Versando as mulher casada
Bulino as pobre coitada
E tumém mocinha nova
E na faca foi pra cova!
Dissse a velha empregada

Foi quando seu Malaquia
Que até então estava quieto
Foi grosso curto e direto:
- Essa é boa quem diria
Para ocêis co' essa mania
De tudo fazer desgraça
Findou-se foi na cachaça
Mais as noite de folia
mode fazer alegria
Junto aos boêmios da praça

-  E não é? Gritou pelé:
- Como podia conseguir
As vez memo sem dormir
Fazendo seu rastro a pé
Pra mode chegar até
A merca municipal
Com destreza sem igual
Só na base do repente
Se mostrava competente
Quem lhe fizesse rival!

- Pois não falei, é cansaço!
 Disse de novo Joquinha
Que de vez perdeu a linha
E enumerou passo a passo:
- Fazer boato eu não faço
Primeiro veio a fadiga
Dispois a dor na barriga
Não soube fazer dinheiro
Nem familia nem herdeiro
Tendo a fome como amiga!

- Benção minha santidade!
Disse a empregada depressa:
- Com uma ligeireza dessa
Vai ribar notra cidade?
Pra matar a curiosidade
Da véia empregada beata
O padre para e relata:
- Vou benzê o infiél
O escrevedô de cordel
Cão sarnento e vira lata…

E veja bem minha filha…
Continua o homem de Deus:
- Rimava ele os versos seus
Pondo tudo na cartilha
Se quer respeitava a trilha
Dita pelo salvador
Dizia ser cantador
Sem dono ou religião
O que matou esse irmão
Foi maldição do Senhor!

Eis que o silêncio de outrora
Fez-se de novo presente
O sol estralava quente
Quando todos viram Aurora
Dona vistosa que mora
Na zona do meretrício
E exerce o mais velho ofício
Fazer a revelação
Num velho papel de pão
A causa de seu suplício

Bradou a moça imponente:
- Que todos saibam agora
O que nas últimas hora
Como último repente
Disse ainda consciente
Meu padinho tão amado!
Abriu o papel amassado
E mesma ainda chorosa
Leu com voz poderosa
O valioso recado:

“ - Faço aqui meu testamento
Fruto da minha labuta
E a amada prostituta
Peço total cumprimento
Parto sem recentimento
Deixando minha poesia
Pra ser lembrado dia a dia
As coisa da minha terra
Onde minha vida se encerra
Nasce o poder da magia…

Só cantei o que é verdade
Por amor a minha gente
Sempre honrei meus parente
Mesmo os sem lealdade
E cheio de felicidade
Entrego minha vida danada
Pra que seja transformada
Naquilo que na veia corre
Pois li que alma não morre
Fica pra sempre encantada!"

A moça deu uma engasgada
Amassou o velho o papel
Virou-se de olhos pro céu
E completou emocionada:
- Nunca que lhe cobrei nada
Por nossas noites de amor
Pois tal qual fosse uma flor
Cas pureza de um menino
Cumpriu ele seu destino
Partindo sem sentir dor…

Disse mais a mulher dama:
- Nunca ouve quem mais me amasse
E por mais que o tempo passe
Não ponho outro na cama
Pois não chorei e nem fiz drama
Ao lado do muribundo
Vi que o poeta vagabundo
Foi mesmo um cabra de sorte
O que se diz causa morte
Foi sua missão nesse mundo!
 
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