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O Coronel e o Anjo

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Essa poesia de cordel carrega a marca registrada do cordelista Tárcio Costa. um humor afiado só encontrado na preciosa literatura de cordel.

 

 

Chegando da capital

Donde vendeu a boiada

Um fazendeiro valente

Viu em casa sua amada

Gemendo e dando gritinho

No quarto com um negrinho

Que cavalgava a danada

 

Com a cabeça enfeitada

O homem pois-se a gritar:

_Sai daí nego safado

Pra que eu possa te matar

Depois pego a vagabunda

Faço cavar cova funda

Pros dois poder enterrar!

 

Boi lerdo bebe água suja

E o jovem raparigueiro

Teve logo uma resposta

Pra sair desse entreveiro:

_Ma se tu de mim der cabo

Quem é que tira o diabo!

Disse o safado matreiro

 

A adúltera percebeu

Que o amante tinha um plano

E tratou de entrar no jogo

Em vez de entrar pelo cano

Fez cara de endemonhada

Rosnando descabelada

Ajudando o leviano

 

Nem um pouco convencido

Diz o cornudo enervado:

_ Diabo vais conhecer

Quando for pro outro lado

Picando você na faca

Mando tu e essa vaca

Pra terra do excomungado!

 

O rapaz pensa ligeiro:

_Sai de reto, anda, vai!

Se continuar blasfemando

É já que tua lingua cai

Pois Deus vendo o desarranjo

Enviou-me como um anjo

Pra ver se o capeta sai!

 

Queria o tal coronel

Diante daquele displante

Pegar o cabra da peste

E sangra no mesmo instante

Só que a curiosidade

Foi mais forte que a maldade

Deixando a prosa instigante

 

Com frieza bestial

Pergunta o homem traído:

_Se tu desavergonhado

Não desfruta o proibido

O que faz os dois pelado

Quem nem cachorro grudado

Pois  diga qual é o motivo!

 

Rapaz tenta explicar:

_O mistério se desfaz

Fechei a porta da frente

Deixando aberta a de trás

Quando o tinhoso sair

Bem ligeiro vou agir

E pegar o satanás!

 

E numa calma fingida

O gaiado diz então:

_Nunca que vi anjo preto

Escuro que nem carvão

Mas se vem pelo Senhor

Faça pra mim um favor

De me dar explicação!

 

Foi quando o rapaz gagueja

Mas tóca a desculpa em frente:

_Amarelo preto ou branco

No céu é indiferente

E pra confirmar meu dito

É negro São Benedito

Milagreiro competente

 

Doidinho mode estourar

O coronel se segura

Formula outra questão:

_O céu fica nas altura

Se tu não carrega asa

Como veio aqui pra casa

Pra trazer pro mal a cura?

 

Tava claro a olhos visto

O perreio do flagrado

Mais sem ter outra saída

Respondeu angustiado:

_Não chatei com isso não

Fiz a viagem de avião

Pra não chegar atrasado!

 

O homem tenta pegar

O mentiroso de jeito:

Dizem que anjo não tem sexo

E por isso são perfeito

Uma dúvida me sobra

A julgar pela tua cobra

És tu um anjo com defeito?

 

O contador de lorota

Não tinha como explicar

Nem mesmo como esconder

Pois grande era pra danar

Então disse:_Não é nada

 desembaiei a espada

Foi só pro demô espantar!

 

O corno rançô de vez:

_Mas que não seja por isso

Vou dar uma de santo agora

E te ajudar no serviço!

Deu quatro tiro pro alto

E a mulher bateu de assalto

Fugindo do prejuízo

 

Então disse o coronel

Com uma risada medonha:

_Olha o diabo fugiu

Oh diabo sem vergonha

E agora num precipício

Tu  anjo mostra o ofício

De arribar que nem cegonha!

 

O coronel lhe arrastou

Até grande ribanceira

E foi logo discursando:

_Eis a única maneira

Bate forte os braços e voa

Ou se não seu bicho à toa

Vou lhe comer na pexeira!

 

O pobre reza em voz alta

Faz promessa a padre Ciço:

_Pai se eu consegui voar

Nunca mais que faço isso

Ouça meu santo o que eu digo

Se me livrar do perigo

Assumo este compromisso!

 

E o padrinho interceu

Por ser santo bom e terno

E o negrinho arribou

Por obra do pai eterno

Restando pro corneado

Correr gritando assustado:

_Vai ter fé assim no inferno!

 

 
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