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1 Nem que eu fosse o que não sou Nem que a terra balangasse Nem que Deus fosse o diabo Nem que o diabo endeusasse Nem que o sertão fosse chuva Poeira do céu desabasse 2 Nem que Lampião curasse Invés de matar macaco Nem que Maria bonita De feia fosse um cavaco Nem que a seca encolhesse O mundo dentro dum saco 3 Nem que palma feita aos caco Fosse carne ou rapadura Nem que a fome fosse amor Nem que amor fosse fritura Que estourasse na panela Do peito da ditadura 4 Nem que a virgem nas altura Nos faltasse educação Nem que cristo lá da cruz Perdesse a convicção E nem que o espírito santo De pomba fosse dragão 5 Nem mesmo assim cidadão Não haverá quem questione O filho da Parahyba Escrita c’o ipicilone E que hoje é João Pessoa Assim disse o cicerone 6 Pois que o tempo estacione As pedras pelos caminhos Os que temem Padim Ciço Não haverão de estar sozinhos Verso agora um imortal Os seus ganho e seus espinhos 7 Juntando-se os pedacinhos Tem-se aqui uma vida inteira Começo pelo começo Por não haver outra maneira No estado da Paraíba Velha terra brasileira 8 Uma procissão inteira Veja que situação Esperando frente ao grande Palácio da Redenção Pra mode dá boas vindas Ao novo filho varão 9 Nas linhas da criação O destino é desenhado No sítio de Acauhan O rebento foi criado Mas quando tinha três anos O pai fora assassinado 10 Era um senhor deputado Que teve morte matada Por ser ele partidário De João Pessoa e mais nada No baralho da política Tornou-se carta marcada 11 Pra fazer nova morada Foi-se pra Taperoá Pra família perseguida Lugar seguro não há Mas o tempo que é remédio Cura a gente adonde vá 12 E o que tem de ser será E a vida foi-se levando Pois mal sabia o cabrinha O que estava lhe aguardando Naquele misterioso Cariri paraibano 13 E lá se foi mais de ano E o danado foi pra escola Vislumbrando os molengo E repente de viola E foi guardando tudinho Pra de dentro da cachola 14 Diz que o mundo é uma bola Que gira em torno de si Assim o jovem garoto Arribou do cariri Pra recife Pernambuco Nunca mais saiu dali 15 Se saiu eu nunca vi Sei que nem era barbado Quando o jornal do comércio Fizera então publicado O seu primeiro poema Pra surpresa do danado 16 Eta moleque arretado Nada lhe fugia as vista Freqüentando o bom colégio Americano Batista Ginásio Pernambucano E Osvaldo Cruz tão na lista 17 Dois diploma ele conquista Virou doutor de respeito Estudou filosofia Depois de fazer direito Mas era a escola do povo Que lhe calava no peito 18 Pois hora já homem feito Mas olhe só quem diria Com hermilo Borba filho Que muito lhe ajudaria Mais Gastão e Joel Pontes Um teatro fundaria 19 O cabra então recebia A chave do seu destino Bebendo do saboroso Romanceiro nordestino Como quem recita em versos As palavras do divino 20 E o arteiro cheio de tino Veste uma mulher de sol Canta as harpas de Sião Do nascer ao arrebol No Auto de João da Cruz Tem o cordel de farol 21 Feito linha com cerol Que corta as pipas no ar Monta peça estréia peça Bota outra no lugar E o Auto da Compadecida Faz o trem da história andar 22 E quem nunca ouviu falar De João Grilo e de Chicó Cujo um era mais covarde Contador de trololó E outro que no pós morte Jesus dele teve dó 23 Olhe meu Deus vejam só! Nessa historia tem palhaço Quando é feita no teatro Faz ele aquilo que eu faço Vai fazendo a ligação Rodando feito um compasso 24 Essa história passo a passo Vem ca mulé do padeiro E seu marido que é froxo Corneado por inteiro E tem um gato coitado Descomendor de dinheiro 25 Possui inté cangaceiro Tonho Morais valentão Compadecida e Manuel Encourado e cramunhão Severino Aracajú Padre bispo e sacristão 26 E nosso autor em questão Tem de gênio e de maluco Deixa a advocacia Antes do piá do cuco Vira professor na grande Federal de Pernambuco 27 C’o essas carta inté eu truco O homem até romanciou Teve até Rei Degolado Fernando e Isaura, versou Da Pedra do Reino e o Príncipe Do sangue que foi e voltou 28 E também idealizou Movimento Armorial Que tem como objetivo Um projeto sem igual Do erudito ao popular Nova ordem cultural 29 Foi com peça teatral Musica e literatura Na dança e nas artes plásticas No Cinema e arquitetura Que esse mestre nos mostrou Toda a sua envergadura 31 O sertão da vida dura Hoje tem representante Ele é o grande defensor Desse povo itinerante Quem quiser saber seu nome Eu lhes digo num instante 32 Pra não ser deselegante Usarei minha tribuna Deixarei meu testemunho Sem retalho e sem lacuna Os meus versos estão falando De Ariano Suassuna
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