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Homenagem a Dom Helder Câmara

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1

Nem que eu fosse o que não sou

Nem que a terra balangasse

Nem que Deus fosse o diabo

Nem que o diabo endeusasse

Nem que o sertão fosse chuva

Poeira do céu desabasse

 

2

Nem que Lampião curasse

Invés de matar macaco

Nem que Maria bonita

De feia fosse um cavaco

Nem que a seca encolhesse

O mundo dentro dum saco

 

3

Nem que palma feita aos caco

Fosse carne ou rapadura

Nem que a fome fosse amor

Nem que amor fosse fritura

Que estourasse na panela

Do peito da ditadura

 

4

Nem que a virgem nas altura

Nos faltasse educação

Nem que cristo lá da cruz

Perdesse a convicção

E nem que o espírito santo

De pomba fosse dragão

 

5

Nem mesmo assim cidadão

Poderia alguém dizer

Que não será merecido

O sujeito receber

A sincera homenagem

Que agora eu vou fazer

 

6

Pois se faço é com prazer

Pondo as cartas sobre a mesa

Mil novecentos e nove

No Ceará Fortaleza

Nasceu esse cabra valente

Quase um santo com certeza

 

7

E veja só que beleza

Pessoa assim destinada

Aos quatro anos já tinha

Sua vida revelada

Queria servir a Deus

Em devota caminhada

 

8

E que desistir que nada

Aos oito eucaristia

Catorze pro seminário

Aos vinte dois quem diria

Na festa da assuntada

Ordenado ele seria

 

9

E foi logo no outro dia

Que o bom padre rezou missa

Tornou-se até diretor

Excomungando a preguiça

E na educação do estado

Do Ceará fez justiça

 

10

Diz que homem sem cobiça

Não há mal que ele não vence

E o padrinho cria ainda

A legião Cearense

Pelo bem do seu rebanho

Fez muito mais que se pense

 

11

Feito um artista circense

Que não possui uma morada

Disse adeus a sua terra

E pôs o pé na estrada

E no Rio de Janeiro

Começou nova jornada

 

12

Nessa nova empreitada

Nada lhe fugia as vista

E viu Deus Pátria e família

Da Ação integralista

Como um bem indispensável

Para um Brasil futurista

 

13

Só não mesmo lhe conquista

Mesmo não sendo contrário

Assumir um compromisso

Político partidário

E vamos correndo a história

Que o poeta tem horário

 

14

E o nobre missionário

Segue então sua missão

E no período pós guerra

Funda a dita comissão

Católica nacional

De apoio a imigração

 

15

E o homem de devoção

Foi por Deus valorizado

Quando aos quarenta e três anos

Bispo fora ordenado

E nas linhas do destino

Seu caminho era traçado

 

16

Virou um bispo arretado

Visto assim nunca se viu

Renovou a santa igreja

Foi fundador da serviu

Conferencia nacional

Dos bispos desse Brasil

 

17

Fosse dez ou fosse mil

Só se sentia contente

Quando podia ajudar

Ao povo pobre e indigente

E o santo homem de Deus

Mostrava-se agora valente

 

18

Com o cardeal eminente

Fez questão de discordar

E entre Olinda e Recife

O padrinho foi morar

Dedicando-se aos pobres

E humildes desse lugar

 

19

M’a o regime militar

Que tinha lá os seus planos

Achava que o nobre bispo

Podia lhes causar danos

Uma vez que ele brigava

Pelos direitos humanos

 

20

Pois pra debaixo dos panos

A miséria se varria

E pra falar da verdade

O bom bispo se valia

Da coragem e da palavra

Onde nada se escondia

 

21

Mas o regime sabia

É coisa séria eu não brinco

Que água mole em pedra dura

Se não fura faz um trinco

E a voz do bispo é calada

Por força do AI-5

 

22

Pelo peso desse finco

Se calar era o conselho

Mostrar a cara do bispo

Nem mesmo em foto no espelho

O estado esconde do povo

O arcebispo vermelho

 

23

Mas nem sempre o coelho

É quem vence a tartaruga

E a palavra do valente

No estrangeiro ganhou fuga

E as lágrimas de uma nação

O homem de Deus enxuga

 

24

Com o tempo cria ruga

A cara da ditadura

E vem a democracia

Findando toda tortura

E nosso herói vê feliz

Os rumos dessa aventura

 

25

Tem nossa literatura

Tudo bem documentado

A quatro Nobel da paz

Fora o Bispo indicado

Dentre tantos outros títulos

Com que fora premiado

 

26

Vejamos por esse lado

Se a vida é como uma tâmara

Vezes seca, vezes doce

Ou estranha como uma sâmara

Mais bela fica ao lembrarmos

Dom Helder Pessoa Câmara

 
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